10.10.20

 

Porque me olhas a cor

nesse estatuto de ser maior?

Por falta de amor?

Por mágoa ou rancor?

Ou por achares que é ser menor

reconhecer  a igualdade?

 

Porque devastas o semelhante

num narcisismo ofuscante?

Pela luz, pois então!

Pela auto iluminação

populista; desumana.

 

(Refrão)

Ai desmonta

ai a montra!

 

Para que te serve esse foco

se iluminas um lugar oco?

Para aparecer, pois então!

Ter poder e razão

e agrados na visualização

de um reflexo desumano!

 

Porque ergues no teu medo

as muralhas do teu ego?

Por vazio, pois então!

Voluntária submissão!

A “mudança” com argumentação

intransigente; desumana!


(Refrão)

 

Se encontrares nesse lado fosco

a revolta sobre o teu desgosto,

não esqueças que há

um lado de cá,

onde as mãos, na terra deste chão,

semeiam humanidade.

 

(Refrão)



"A montra"

para a minha irmã

 

30.8.18

O ouro sobre azul trouxe uma exatidão quase muda no serpenteio de um Tejo sereno.
A cumplicidade do sossego surpreendeu o encanto e alagou a esperança sedenta.

Havia um abraço perdido. 


6.3.18


Viagem destinada à presença
Reencontro de ausências
Nudez premeditada
Meditada
Ângulos mortos do vazio
Mentes isentas
Corpos repletos
Pele de paz em prazer vivo
Silhuetas diluídas
Suspiros d’alma




                                                 Retiro.


16.2.18

Viajámos além do itinerário e as roupas marginais foram pedaços de chão.
O prazer sobrepôs-se à ata da exatidão. O trajeto imergiu.
Fomos os ausentes mais presentes, entre os abstratos e delirantes salpicos cálidos.
O timbre gemeu frases, de dicção frágil, mas sem rédeas de vocábulo.
Embaciámos o silêncio seguinte na pele do reconforto, enquanto o ralo engolia efeitos de delito em rodopios. 






7.11.17

Nunca poderei encontrar uma forma de concluir esta frase, que não seja através do facto de não a ter. 

Ei-la portanto, meramente suspensa, apesar de contrariada pela pontuação.

Acontece, não tanto pelo vago das palavras escolhidas, mas pelas amarras da exatidão.

A impermeabilidade resultante de certezas dicotómicas, devasta a hipótese de mergulhar sinceramente na transparência. 

Por isso me cai a noite constantemente, ainda que sejas manhã.


25.9.17

Talvez seja um vislumbre, essa linha paralela que acompanha o suspiro equilibrista deste carreiro dormente.
Talvez seja só uma lâmina a esventrar a falta de senso.
Talvez seja a pulsão que assalta o peito e invade a líbido.
Talvez seja o resgate de um eco que apelou à tua chegada.
Talvez seja o lume da condicionalidade que deflagra a cada aceno que te dirijo.
Talvez seja, sim.
Talvez não. 




4.9.17

O sentido desmantela-se.
Dizer comporta o vazio. Escrever nada revela.
A raiz dos afetos cede à sede.